Transcrição

Sempre quis transcrever-me em palavras.
Minha qualidades seriam adjetivos e meus atos não seriam mais que verbos. Irregulares, é claro. Os meus eus seriam pronomes, de primeiro, de segundo e de terceiro grau. Eu chegaria adjunto dos pronomes. Monossilábico de manhã, proparoxítono de tarde e coletivo de noitinha. Se eu fosse um advérbio, seria de intensidade. Se eu fosse um pronome, seria impróprio. Se eu fosse um substantivo, seria próprio. Se eu fosse um verbo, sem dúvida eu não me conjugaria no gerúndio. Não sei bem se tenho um pretérito mais-que-perfeito, mas tenho certeza que é bem-mais-que-divertido.
Abreviações não seriam necessárias. Eu seria uma palavra longa e gostosa. Ou seria um conjunto de palavras pequenininhas e sonoros, que nem nos poemas de Vinícius. Quantas letras eu teria?
Eu teria acento, uma trema. No U, é claro. Assim forma um sorriso: Ü. Viu?
Eu sou feito de sorrisos. E de palavras bonitas. Então acho que eu seria um poema. Ou um conto mal colocado? Boa pergunta. Eu teria pontos de exclamação? E de interrogação? Ponto final? Dois pontos?
Eu seria escrito a lápis. Pois assim dá pra escrever e apagar e fazer de novo quantas vezes quiser.
Talvez eu seria um dicionário, de tão complexo. Ou um livro pra crianças, de tão simples.
Mas eu ia grudar na cabeça das pessoas, e elas iam falar essas palavras para os filhos delas. Que iam querer ser novas palavras e palavretes e palavrões.
Agora feche os seus olhos e pense em que palavra você seria.

Eu acho que eu seria… mar.
Ü

Transcrição

Deni Braga

São Paulo, Brazil

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